A justificação pela fé.
Artigo por: Rubem C. Teles - Membro da igreja presbiteriana Betânia em Fortaleza - CE
Prefácio.
O presente artigo que tem como autor R. C. Teles, é escrito em um momento crucial onde o tema "Justificação pela fé" tem sido mal compreendido por boa parte dos cristãos na atualidade. Teles é um dos novos escritores cristãos que merece nossa atenção aos seus pensamentos transmitidos via literária que buscam oferecer reflexão aos seus leitores.
Na presente obra o autor tem como objetivo levar-nos à origem e o propósito da fé, apresentando um conceito que vai além da semântica conduzindo-nos ao entendimento correto acerca da mesma. O autor esmiúça o tema Fé contrapondo o pensamento que atualmente perdura entre nossa sociedade cristã de que a mesma seria uma obra, ou algo produzido pela própria vontade humana e não do Espírito Santo.
Rubem faz um destaque em forma de denúncia da maneira errônea como tem sido ensinado de que Féseria uma força da mente ou um pensamento positivo, levando assim uma multidão a um entendimento vazio sem um postulado bíblico.
Somos ainda aduzidos neste artigo ao entendimento de que a “justificação pela fé é a manifestação da justiça de Deus sobre os pecadores que passaram a crer pela operação sobrenatural do Espírito Santo a conduzir a Palavra de Deus aos seus corações”. O autor traz à memória de que todo homem é culpado diante de Deus conforme as Escrituras Sagradas nos ensinam em Rm 3.23, e que é somente através dessa justificação que obtemos paz com Deus (Rm 5.1). Sua referência aBerkhof de que a justificação é um ato jurídico nos conduz à uma reflexão profunda sobre a condição humana diante de Deus.
Teles faz apontamentos críticos plausíveis acerca da má interpretação do termo “o justo viverá da fé”. Assim como o autor, eu mesmo já presenciei abordagens fora do contexto que não expressavam a grandeza do texto. Deixo expresso aqui meu incentivo a você, querido leitor, a desfrutar de colocações hermenêuticas coerentes.
Assim sendo, não há nada que o ser humano possa fazer para justificar-se diante de Deus, a não ser que este seja alvo da ação misericordiosa do Altíssimo como afirmou Martyn Lloyd-Jones: “A justificação pela fé significa que, apesar do que você é Cristo morreu por você”.
Luciano R. S. Custódio. (Pastor na igreja Batista Nova Esperança em Mesquita RJ. Escritor de blog e professor de Teologia, formado na FAECAD - Faculdade Evangélica de Tecnologia, Ciências e Biotecnologia da CGADB).
A maioria das igrejas no Brasil não se qualificam como comunidade, mas funcionam mais como uma multidão de indivíduos desconectados que aparecem esporadicamente no mesmo local para uma experiência amplamente passiva durante a semana.
Isso significa que a maioria das igrejas não fornecem uma lente interpretativa para o evangelho como nova comunidade gerada em Cristo. O que lhes falta é a doutrina mais importante do Evangelho, a doutrina pela qual nós reconhecemos aqueles a quem nasceram de novo; a justificação pela fé.
É com essa doutrina que nos nutrimos e nos mantemos firmes na perseverança da fé que uma vez nos foi dada; sim, recebemos sobrenaturalmente a fé que nos mantém com os olhos fixos em Cristo. E é com muita intrepidez e com muita perícia que o meu querido irmão Rubem Teles expõe esta doutrina pela qual a igreja se mantém genuína, pois, se lhes falta esta mensagem, lhes falta tudo.
Minha oração é para que todos os que lerem esse artigo, venham ser edificados de forma impactante. A Deus sejam honra e glória. Amém.
Frankle Brunno. (Pastor na Summit Church em São Paulo. Missionário por 8 anos na Assembleia de Deus Madureira; percorreu 14 estados do Brasil. Foi vice diretor da Missão SAEM (Sociedade de Apoio Evangelístico e Missionário) no estado da Paraíba, lecionando cursos de preparatório missiológico.)
O autor deste artigo, aborda um assunto de suma importância. É uma das principais doutrinas que se fazem ausentes em muitos púlpitos no Brasil.
Se você olhar atentamente este artigo, irá notar que o autor nos leva a entender o quanto jamais poderíamos, por nós mesmos, sermos justos, ou justificados diante de Deus por qualquer coisa que pudéssemos produzir, ou realizar de "bom".
Para que o leitor possa entender sobre a fé, faz-se necessária a compreensão correta da visão teológica do autor. O artigo elucida a questão de que a fé cultural de nossos dias não pode, de forma alguma, conduzir de fato pecadores à Jesus Cristo.
Vejo uma grande necessidade das denominações do nosso país começarem a fazer uso desta maravilhosa doutrina da Justificação pela Fé, para a saúde espiritual de nossas igrejas. Eu indico fielmente este artigo, não só para os iniciantes da fé, mas, principalmente aos líderes e pastores do rebanho de Deus. Artigo seguro e fiel na exposição do santo evangelho de Jesus Cristo.
Anderson Vieira (Pastor na Igreja Min. Getsêmani Reformado, em Goiânia GO. Teologia reformada pela Visão Bereano Apologética, atualmente faz seminários básicos para formação de líderes.)
Do autor
Eu sei que pode parecer exagero fazer um preâmbulo com indicações carregadas de deferências de três pastores amigos e queridos de diferentes ministérios para um artigo e não um livro. Todavia, por ser meu primeiro artigo e escrito completo sobre algum assunto teológico de tamanha importância à vitalidade da igreja do Senhor, me senti na obrigação de preparar algo especial para marcar o início oficial da posteridade de meus pensamentos e conhecimentos teológicos e filosóficos, para a edificação de vidas.
O presente artigo não é fruto de algum impulso indutivo, ou algum pensamento equivocado, mal elaborado, ou não estudado. Trata-se de um trabalho que venho guardando em meus pensamentos e planos já há alguns anos. Mais precisamente hà cinco anos atrás, quando me converti à fé reformada, comecei a estudar com afinco as grandes e maravilhosas doutrinas da graça. Foi então, que, tendo ocasião de tempo livre e material e bagagem suficientes para expor alguma coisa básica sobre a fé cristã, não exitei em fazê-lo.
A ocasião na qual comecei a escrever este artigo é um tanto inóspita e inusitada, pois se trata de um momento delicado tanto para mim, quanto para uma família que nutro grande apreço. Foi quando estive como acompanhante hospitalar no leito do sogro de meu pastor Aldemir Viana Júnior , que sofre de mal de alzheimer. O motivo de sua internação era a suspeita de ter contraído meningite, e, para ajudá-los, fui, à pedido da esposa de meu pastor, minha amada irmã Shirley, passar três dias com seu pai no hospital.
Durante esse período, me vi em um profundo desconforto por passar tanto tempo sentado lendo e não produzir nada. Foi então que tomei em mãos meu celular, e comecei a escrever o presente artigo no dia 20 de Janeiro de 2020.
O artigo durou cerca de quatro dias para ficar pronto. Contei com a ajuda de meus amigos pastores credenciados para dar algum crédito ao meu escrito, visto que eles já vêm antes de mim, e são muito mais considerados e conhecidos do que um mero membro que não possui ordenação alguma ou credencial. Falo desta maneira porque não possuo canudo teológico algum no presente momento. Sou apenas um leitor assíduo de grandes escritores e pensadores cristãos reformados como Jonathan Edwards, D. Martin Lloyd-Jones, John Piper, Augustus Nicodemus, Franklin Ferreira, Heber C. de Campos Jr, Hernades D. Lopes, entre outros gigantes da fé. No mais, sou um autodidata que ama teologia e que está se preparando para o sagrado ministério do episcopado.
Espero do fundo do meu coração que este artigo venha trazer luz ao seu coração e ao seu entendimento, caro leitor. E que você venha, através do conhecimento que vier a adquirir aqui, levar adiante a boa semente para gerar vida nos corações das pessoas que você vier a ter oportunidade de conversar e ensinar. À todos, graça e paz da parte de Deus nosso Senhor.
Rubem C. Teles - 2020, Janeiro. (Membro da Igreja Presbiteriana Betânia em Fortaleza Ce. Pregador do evangelho, escritor, teólogo e filósofo cristão autodidata. Operante nos ministério de louvor como vocalista, e de mídia e comunicação de sua igreja local).
Introdução
O tema no qual iremos nos debruçar por alguns instantes é a principal doutrina do cristianismo. Martinho Lutero disse: “Esta doutrina é a cabeça e a pedra fundamental. Por si só, ela gera, alimenta, edifica, preserva e defende a igreja de Deus. E sem ela, a igreja de Deus não poderia existir nem por uma única hora”. O Dr. D. Martin Lloyd-Jones afirmou que a justificação pela fé “é a grande doutrina central de todo protestantismo, e vocês descobrirão que em cada avivamento ela sempre vem na vanguarda”. Os luteranos chegam a dizer que, por essa doutrina, a igreja cai ou permanece de pé. Ela é a espinha dorsal de todas as doutrinas bíblicas. John Piper diz: “Pregar e viver a justificação pela fé glorifica a Cristo, resgata pecadores desesperados, encoraja santos imperfeitos e fortalece igrejas frágeis”.
Embora assim seja, é um dos temas do cristianismo clássico mais mal compreendidos em nossa época por muitos daqueles que se dizem cristãos. Não compreender a justiça que provém da fé, é também desconhecer a fé que imputa justiça. É negar a essência do que é ser de fato um salvo em Jesus, é rejeitar a importância da graça que precede a fé. Logo, em cadeia, segue-se a negação de quem desconhece a justificação pela fé como, em última consequência, uma negação das Escrituras Sagradas, uma rebelião contra a Palavra de Deus, e o Autor da mesma.
"Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus."
Romanos 5.1,2.
O texto acima abordado, sugere que o homem só pode obter paz com Deus mediante a fé. Essa fé, que é o sinal daquilo que rompe a barreira da inimizade tanto com Deus como para com os homens (Ef 2.14), é o único meio que alguém pode obter essa paz última.
Essa paz, é um fim supremo que deve ser alcançado, não de qualquer forma, mas, única e exclusivamente pela fé. No entanto, há entre a fé e a paz para com Deus um fim subordinado (usando termos de Jonathan Edwards), esse fim é a justificação.
A grande questão aqui é entendermos a natureza dessa fé, e sua finalidade. Devemos também entender a natureza da justificação que se obtém por meio dessa fé, e, qual a sua finalidade.
Existem distinções dessa doutrina entre os cículos de pensamentos cristãos até mesmo no meio reformado, como há entre o Luteranismo e o Calvinismo, apesar de haverem similaridades. Articulus stantis et cadentis ecclesiae (o artigo sobre o qual a igreja permanece, ou cai) é um dos principais termos usados tanto em alguns círculos luteranos como calvinistas. Mas aqui, exclusivamente irei trazer o pensamento calvinista baseado nas Sagradas Escrituras sobre o assunto.
A origem e o propósito da fé.
A fé, do contrário que alguns acreditam por desaviso, ou por falta de informação e conhecimento, não é uma obra. Aqui precisamos fazer uma distinção não meramente semântica entre obra e fruto. A obra é a causa do fruto, mas isso não quer dizer que o fruto não possa gerar alguma obra, o que nos parece um ciclo de termos.
Vejamos só, que a obra de Deus realizada em Cristo deu muito fruto, no que tange ao seu propósito último. Dentro disso e, de forma mais específica, o Espírito Santo opera nos crentes a vontade de Deus, a fim de que frutifiquem para Deus com suas obras. Ou seja, o Espírito Santo operou sua obra em nós, e assim damos o resultado desta ação (obra) do Espírito, esse resultado é o fruto do Espírito, que, por sua vez produz boas obras que nele estavam contidas.
Notem bem que o termo usado por Paulo aos gálatas está no singular, dando a entender que a forma como ele define "o fruto do Espírito", não diz respeito à sua definição como sendo ele um fim em si mesmo, pois, as obras da carne são definidas no plural e cabem bem nessa definição, pois são um fim em si mesmas, visto que a figura do fruto é uma contradição à "obras mortas", não no mesmo tipo, para mostrar oposição entre o que é vivo e o que é morto. O Espírito é vida e paz, logo, o que ele produz também é. As obras mencionadas são mortas, e encontram um forte contraponto no fruto do Espírito. É como se o fruto guardasse em si sementes de boas obras. Sendo assim, fica; o Espírito realiza sua obra de conversão no coração do eleito de Deus, dando a ele uma espécie de pacote, ou combo que chamamos de fruto recheado de boas obras. Esse fruto, por sua vez produz boas obras que nele estão contidas. Então, a obra primária do Espírito produz o fruto proveniente dele, por conseguinte, esse fruto produz boas obras. Não se trata de um ciclo, mas de uma obra que encontrou seu propósito em uma obra final que a completa.
Logo a fé, por ser o fruto do Espírito, (pois todas as definições de Paulo aos gálatas são elementos fundamentais da fé, o que nos leva a crer que ele está tratando da reverberação da mesma) não é obra em si, mas carrega boas obras dentro dela mesma, que hão de se manifestar posteriormente. E a justificação, é a ferramenta principal para este fim de manifestar as boas obras de Cristo no crente; e só assim, a justificação passa a ser justiça, que é a forma prática da fé em última análise.
A fé é a convicção de coisas invisíveis, é também a certeza de coisas esperadas (Hb 11.1). A fé em Cristo Jesus é a certeza fiel naquilo que Deus, em sua Palavra já revelada prometeu. Não é uma força da imaginação, ou um pensamento positivo, de modo algum. A fé é uma certeza tão grande, forte e firme, que não se pode apoiar em sentimentos humanos, ou em algum emocionalismo barato. Não pode ser gerada pela força de vontade humana, por isso não se encaixa nos padrões humanos.
O fato de alguém crer, pelo que nos fala o apóstolo aos romanos, é o resultado da ação de outrem, é fruto da obra de alguém que fez por outro, o que esse outro indivíduo seria incapaz de realizar por si mesmo. A fé é um dom de Deus, como afirma Paulo aos Efésios, no capítulo 2 e no versículo 8, não como o resultado do trabalho do homem, ou do esforço humano, muito pelo contrário, a obra da salvação como um tudo (como muito bem sabemos) é trabalho de Deus realizado em Cristo Jesus do princípio ao fim.
Em suma, a fé é a capacidade sobrenatural dada por Deus ao homem (nascido de novo) de se submeter à Sua vontade prescritiva. É a capacidade de sentir paz na esperança da vida eterna em meio às tempestades de aflições. É o auxílio imediato da graça de Deus ao coração do pecador.
A finalidade da fé, assim como todos os outros meios de graça que Deus dispõe sobre sua igreja, é tornar o crente em Jesus semelhante à ele. É levar o cristão a ser de fato aquilo que ele realmente deve ser: "uma pequena imitação de Cristo". E o meio pelo qual isso se torna possível é a justiça de Deus imputada ao homem por meio da fé. Ela tem como objetivo último, tornar um filho de Deus perfeito. E, muito embora diante do que vemos não seja uma realidade para os nossos olhos, é assim que Deus nos enxerga pelos óculos de Cristo; perfeitos, apesar de ainda pecadores. Embora ela tenha este objetivo, a função da fé é encaminhar o crente à justiça que há em Cristo; a justificação é o resultado subjetivo da fé, e a justiça (obra em verdade) é o resultado prático da justificação, como tratarei posteriormente com mais precisão.
A justiça que provém da fé; sua origem e o seu propósito.
Paulo o apóstolo, na mesma carta aos romanos, no capítulo 4 do versículo 2 ao 5, afirma categoricamente que Abraão não fez nada para ser justificado, apenas creu. Isto significa que ele não trabalhou por isso, não realizou obra alguma para obter nada de Deus. Caso assim fora, Deus estaria em débito para com Abraão, e não seria um favor dar ao mesmo a paz para com Ele (fim supremo da salvação que é também a vida eterna). Desse modo, não haveria graça alguma.
Essa justificação, é um ato divino que começa em tomar os méritos alcançados por Cristo por meio de sua obra vicária perfeita em propiciação, e, digamos que reveste o crente em Jesus com os benefícios desses méritos, bem como os próprios méritos.
O curioso é que Deus prometeu em Êx 23.7 que não justificaria o ímpio, nas seguintes palavras: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio.”. Todavia, pela graça essa justificação se torna possível pelo sangue de Jesus.
A justificação pela fé é a manifestação da justiça de Deus sobre os pecadores que passaram a crer em Jesus pela operação sobrenatural do Espírito Santo a conduzir a Palavra de Deus aos seus corações regenerando-os. Ele, O Senhor Deus, é quem toma a iniciativa primária de perdoar o homem de todos os seus pecados, declarando-lhe que não existe mais nenhuma condenação contra ele. Ele é o autor da justificação, a qual não pode ser obtida pela obediência humana à Sua lei (Gl 2.16,21). Ele é o Juiz Supremo que declara a absolvição do pecador. E esta é a primeira ocorrência, ou manifestação da justiça de Deus na vida do homem.
● Como começa a justificação pela fé.
Em primeira instância, a justificação começa a ser algo que ocorre no plano espiritual, logo depois que Cristo, tendo tomado o lugar de pecadores, esses, por sua vez, tomam o seu lugar como filhos de Deus. (E o mais curioso aqui é, que, Cristo é tão imenso que o lugar do qual abriu mão ganha espaço suficiente para receber uma quantidade imensa de pecadores. Em outras palavras, apenas o lugar de um filho, o filho de Deus, é capaz de abarcar todos os pecadores que por ele se chegam à Deus.) Cristo toma sobre si a injustiça e o pecado de seu povo, e o seu povo toma sobre si a justiça do Seu Deus. De forma primária, essa justiça ocorre da mesma maneira que o pecado original no Éden por Adão, de forma subjetiva, ou simbólica, ou, melhor dizendo, de forma espiritual e não física. Ela de fato ocorre como um termo judicial. Mas logo depois, toma novos aspectos no sentido prático. Assim também a justiça que o crente recebe da parte de Deus, pelo exercício da piedade consegue ganhar forma física, o que iremos tratar mais na frente.
A justificação é um ato jurídico, ou uma sentença divina na qual Deus declara perdoado todo pecador que crer em Jesus. Louis Berkhof, teólogo sistemático, define a justificação como: “Um ato judicial de Deus no qual Ele declara, baseado na justiça de Jesus Cristo, que todas as exigências da lei estão satisfeitas com respeito ao pecador”. A justificação é o contrário de condenação. Ela é um ato único e legal que remove toda a culpa do pecado e restaura o pecador à sua condição de filho de Deus, com todos os seus direitos, privilégios e deveres, assim como Cristo, pois a mesma tem isto como um dos objetivos principais. A justificação não ocorre na vida do pecador, não produz mudanças no seu caráter, mas no Tribunal de Deus. Justificação uma é declaração e santificação é transformação. Mas, é a partir da justificação que o Espírito Santo inicia no pecador todo o processo de santificação até a sua glorificação.
● A justificação pela fé, e sua forma prática; a justiça.
Agora, essa justificação não fica apenas na região subjetiva da história. Ela ganha novos contornos com o passar do tempo na vida devocional do cristão, e, por meio da consagração feita por Deus em nós, na prática da piedade e da santificação essa sentença divina anteâmbula ao pecador, ganha novos aspectos no quesito prático, fazendo assim uma fé viva através de obras de Justiça, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos por elas (Ef 2.10).
"Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e os profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo."
Romanos 3.21
Essa justiça, além de ser diretamente uma justiça que emana de Cristo, e torna justo e praticamente da justiça aquele que crê em Jesus, por meio da santificação, independe da justiça própria e de qualquer pseuda “boa obra” de seu anfitrião. É uma justiça que não carece de lei alguma. Não é também, uma justiça que é imputada por obrigações legais que venham oprimir o indivíduo sob ameaça de morte caso o mesmo não cumpra as exigências. Em outras palavras, é uma justiça que foi plantada no coração de um ser pecador e rebelde, que passou, pela graça de Deus a amá-lo e a estimar Sua lei. É uma justiça que não provém da lei, mas que torna o crente em Jesus cumpridor, embora não praticante da lei, mas cumpridor por meio de Jesus Cristo. Isto significa que; mesmo que não consiga praticar toda a lei por ser pecador, em Cristo ele cumpre ela toda, pelos méritos daquele que a cumpriu por inteira em seu lugar. E, apesar de não conseguir cumprir a lei perfeitamente por seus membros mortais devido a lei do pecado, o seu interior passou a amar a lei do Senhor (Rm 7.22,23), e faz de tudo para reverberar a prática justa da lei em seus atos.
A lei e os profetas, muito embora apontassem para essa reta justiça, eram meras sombras da perfeição que se adquire em Cristo. Por isso falharam em fazer com que o povo cumprisse e saciasse essa justiça. Pois se torna impossível mudar atitudes sem que antes se mude corações. Como nos diz Paulo novamente:"por conseguinte, a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom." Rm 7.12. A lei é santa por ser espiritual, por proceder de Deus, mas nós, como Paulo exemplifica como que sendo com ele mesmo, no mesmo capítulo 7, agora no versículo 14, da seguinte maneira: "Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado.". E, por esta razão é que se torna impossível o cumprimento da lei por seres completamente carnais, escravos do pecado.
É também impossível que se façam mudanças no interior do coração humano através de um novo nascimento, sem que não haja primeiramente derramamento de sangue, ou seja, morte. Foi então que Cristo, tomando o lugar de seus eleitos, morreu para que eles pudessem viver em novidade de vida, e assim, por causa dele poderem ser feitos filhos de Deus.
A justiça de Deus é recebida mediante a fé (Rm 3.22). A justificação não acontece por causa da fé, mas, por meio ou através da fé. A fé não tem nenhum merecimento, mas é o instrumento ou a mão que recebe o presente. Esta fé não existe naturalmente no coração humano, mas é um presente de Deus para o homem morto em delitos e pecados, incapaz de compreender qualquer coisa sobre Deus para o salvar (Rm 3.10-12). Por isso, toda pessoa para ser justificada precisa receber de Deus a fé: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).
O justo viverá pela fé.
Já ouvi por muitas e inúmeras vezes da boca de muitos cristãos (especialmente de linha pentecostal), que, para eles, viver da fé, ou pela fé; seria um ato de total abandono de suas atividades comuns e ordinárias, como trabalhar em um emprego que pudessem considerar comum por não fazer parte, hipoteticamente, do círculo de atividades da igreja. Essas pessoas geralmente abandonam sua vida de trabalho “secular” como assim o chamam, sob a desculpa de terem que trabalhar como obreiros, missionários, ou pastores, alegando ser isto o “viver pela fé”.
Minha crítica à este entendimento não é por alguém almejar trabalhar na obra de Deus, de maneira alguma. O problema é entender isso como que sendo o que Deus fala em Sua Palavra com respeito ao justo viver pela fé.
O entendimento que julgo correto e acertado do que nos fala o próprio apóstolo Paulo em sua epístola aos romanos no capítulo 1, e no versículo 17 sobre a vida que o justo passa a ter pela fé, está relacionado a uma fé prática e não meramente religiosa; uma fé viva e eficaz, e não meramente ritos e costumes religiosos, ou liturgias. Nas palavras de Martinho Lutero: “devemos dirigir nossa atenção às interpretações bastante diferentes que fizeram das palavras por fé e para fé, v.17. Lyra sugere a seguinte: ‘Desde uma fé informe a uma fé formada’. Mas isto é de todo inaceitável, posto que nenhum justo vive de uma ‘fé informe’, nem mesmo é certo que a justiça de Deus vem da fé informe – mas em nosso texto afirma tanto um como o outro: que o justo viverá pela fé, e que a justiça de Deus se revela pela fé. Talvez Lyra entenda com ‘fé informe’ a fé dos neófitos, e com ‘fé formada’ a fé dos crentes maduros. Mas uma fé informe no final das contas não é fé, senão algo oposto à fé; pois não vejo como alguma pessoa é capaz de crer com uma fé informe. Mas isto pode-se fazer: ver o que se deve crer, e permanecer assim em suspenso.”
Logo, seguindo-se por este entendimento, chegamos à conclusão de que aquele que tem fé, e que recebeu a justiça de Deus por essa fé, deve, inevitavelmente reverberar sua fé pela forma prática da justiça que emana da fé. Aquele que foi justificado, como já foi dito antes, deve exercer a justiça de Deus que é trazida pela fé que recebeu. Viver pela fé é, portanto, exercer uma vida justa de gratidão pela justificação jurídica que recebeu gratuitamente no tribunal de Deus. É o exercício prático da vida nova que recebeu pela fé que o vivificou.
Boas notícias de salvação.
Todos os homens são pecadores e necessitam do perdão de Deus. A justiça de Deus é para todos e sobre todos, judeus e gentios, porque todos erraram o alvo, deixando de ser conforme o propósito de Deus. E isto, do contrário do que muitos pensam e alegam, não se trata de ser para “todos os indivíduos da raça humana”,mas se trata de todos os “tipos” de pessoas que possam existir, no quesito de nacionalidade, origem étnica, cultural etc. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23).
Então, essa justiça veio a nós pelos méritos de um que pôde, enfim, satisfazer todas as justas exigências da lei, e nós, os que cremos na sua obra perfeita, recebemos os benefícios dele; a salvação por meio da fé, e a justiça que vem por meio desta fé.
A justificação como um todo, é um presente de Deus ao homem. Paulo diz: “sendo justificados gratuitamente, por sua graça” (Rm 3.24). A palavra gratuitamente significa “como um presente”, “sem pagamento”; e a palavra graça significa “por um favor imerecido”. Ela não pode ser comprada por obras humanas ou conquistada por méritos pessoais. Ela é exclusivamente pela graça, como já abordamos anteriormente em outros termos.
