sábado, 2 de junho de 2018

O Evangelho não é um Show


“São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes.
Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um.
Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;
Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos;
Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez.
Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas.” –
2 Coríntios 11:23-28
Este é o relato do Apóstolo (de verdade) Paulo sobre sua vivência na pregação do Evangelho de Cristo. Pouco se sabe sobre sua vida como Saulo de Tarso, antes do encontro com Jesus no caminho para Damasco, mas com certeza sua vida era relativamente próspera, uma vez que coordenava a perseguição aos cristãos.
Porém, ao se converter ao Cristianismo sua vida se transtornou: ficou cego por alguns dias e passou por muitas dificuldades, algumas delas elencadas no relato em 2 Coríntios 11. Trabalhava tecendo tendas para ajudar a se manter. Culminou com uma morte desonrosa, como réu em Roma, por decapitação.
Assim como ocorreu com o Apóstolo (de verdade) Paulo, ocorreu (com diferentes intensidades) com os demais apóstolos e com os cristãos convertidos. Viveram, por séculos, perseguições, torturas e mortes horríveis. Foram considerados párias pela sociedade. Foram achados perigosos para os governantes e demais religiosos.
Por séculos, ser cristão não era sinônimo de festa. Era sinônimo de renúncia, de contrição, de arrependimento, de santidade. Era sinônimo de inimigo do mundo e dos seus prazeres. Era sinônimo de amor ao próximo e resistência ao inimigo.
Mas os tempos mudaram. E os conceitos e valores também.
Hoje ninguém (a não ser que viva na China, na Coreia do Norte ou em países de maioria muçulmana) precisa esconder que é cristão. Ao contrário, em alguns países, como no nosso, é algo aparentemente natural. Num primeiro momento, podemos achar que o sangue de tantos mártires por tantos séculos frutificou, pois o Evangelho chegou até nós e outras nações do mundo.
Mas algo está errado: o Evangelho que professamos é diferente daquele dos primeiros cristãos. É diferente do Evangelho ensinado por Jesus Cristo.
Hoje vivemos o Evangelho do Show.
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Show bom é show que lota e que tem grande arrecadação na bilheteria. É show que traz os artistas mais famosos e mais idolatrados. É show que nos faz esquecer momentaneamente dos problemas e que nos leva, nas suas horas de duração, a um êxtase. Show bom satisfaz nossos sentidos mais primitivos.
O futebol é um exemplo de show bom. Espetáculos musicais também, além dos comícios eleitorais. E agora temos as pregações show, os shows gospel e as Marchas para Jesus. E todos eles trazem os mesmos elementos do sucesso.
Por que cristãos se submeteram, como cordeiros, a torturas e mortes horríveis durante séculos? Por que vemos cristãos preferindo entregar suas vidas no Iraque e na Nigéria a terem que negar a Cristo?
Porque eles se converteram ao Evangelho de Cristo, ao Evangelho da Cruz.
O Evangelho da Cruz prega que o maior precisa servir ao menor. Prega que devemos oferecer a outra face a quem nos agride. Preconiza que devemos amar e abençoar aos nossos inimigos. Ensina que o Reino de Deus está nos céus, não nessa nossa vida curta e provisória.
Quem se converte ao Evangelho da Cruz sabe desde o início que passará por tribulações e que terá que renunciar aos favores deste mundo. Sabe que não tem merecimento nenhum, e que por isso o “morrer é lucro”. Sabe que carece do amor e da infinita misericórdia de Deus, Daquele que criou os céus e a terra e tudo o que há, Daquele que provê nas dificuldades mas que, se não prover, ainda assim continua sendo Soberano sobre todas as coisas.
O cristão do Evangelho da Cruz busca a Salvação de sua alma.
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O Evangelho do Show prega que o cristão nasceu para dominar a tudo e a todos. Prega que somos filhos do Rei, cabeça e não cauda, dignos de todas as promessas dadas ao povo hebreu, porém isentos de todas as maldições recebidas por esse mesmo povo. Preconiza que os nossos inimigos ficarão debaixo dos nossos pés e que cairão ao nosso lado sem dó nem piedade, afinal estão mexendo com os filhos do Rei. Ensina que Deus não apenas nos provê na hora da dificuldade, como tem a obrigação de nos prosperar infinitamente, afinal somos fiéis na entrega dos dízimos e ofertas, que têm o poder de direcionar a vontade Soberana (pero no mucho) de Deus a nosso favor.
O cristão do Evangelho do Show busca a recompensa ainda nessa vida, já que o pós morte parece muito distante.
Quando enfrentarmos uma verdadeira perseguição no Brasil (verdadeira, com risco de torturas e morte, não falsas perseguições como as alegadas por [im]pastores que cometem falhas e as têm expostas), muitos dos cristãos convertidos no Evangelho do Show negarão a Jesus e apostatarão da fé. Afinal, não foi isso o que lhes foi prometido naquela pregação show, naquele show gospel ou naquela Marcha para Jesus. O combinado foi que Jesus os faria ricos, famosos, com sucesso profissional, curados de todas as doenças e tudo o mais. Foi-lhes prometido que teriam muitos amigos na igreja, muitos eventos ministeriais para se divertir de forma saudável, um presidente ou deputado amigo da igreja que o ajudou a se eleger, enfim, o Paraíso na terra. O cristão do Evangelho do Show não foi preparado para a perseguição.
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Eventos gospel como os citados e muitos outros têm o poder de inchar as igrejas. Atraem as pessoas pelo espetáculo, pelo show, pelas promessas aqui e agora, pelas benesses que o fiel pode usufruir ao fazer parte do “clube”. Como todo o mundo almeja essas coisas, é muito fácil oferecer esse Evangelho.
Mas o Evangelho do Show é FALSO.

Via: Esteangeira
Vera Siqueira

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